Longe

É verdade mesmo que Longe… tem um quê de estreia – mas isso, no meu entender, ocorre porque a maturidade e profundidade musical do CD elevam a um patamar até então inédito a produção do autor.

A melancólica suíte para orquestra Longe…, que dá nome ao disco, inicia a jornada. Cada um de seus seis movimentos evoca uma situação: “Longe o mar”, “Longe em qualquer parte”, “Longe o vento”, “Longe alguém caminha”, “Longe na lembrança” e “Longe na solidão”. As belas Imagens para flauta e orquestra, com solos de Rogério Wolf, também remetem a diferentes estados a partir de seus títulos. Já as cinco Paisagens brasileiras encerram a viagem musical, não sem antes passar por diferentes cenários como Serra do Mar, Planalto Central e Amazônia.

Os naipes de cordas e os solos dos sopros caracterizam a textura do disco. Sob o ponto de vista musical, estão lá atributos que marcam a produção geral de Alexandre Guerra: a predominância da linguagem tonal e a influência de autores como Debussy, Ravel, Villa-Lobos e Tom Jobim. Jobim, aliás, era ele mesmo um grande admirador dos outros autores mencionados, e é à produção sinfônica do mestre carioca que o disco frequentemente nos remete. Outra influência considerável é a do minimalismo de Philip Glass e de outros autores norte-americanos que também se dedicam a trilhas sonoras (vide, por exemplo, “Longe alguém caminha”).

Se, como já foi dito, essas características não são novas em relação à produção anterior de Alexandre Guerra, o que chama atenção é o amadurecimento de sua trajetória composicional. A persistência e trabalho meticuloso do artista faz com que, partindo de um mesmo universo musical e referencial, ele consiga dar às obras maior complexidade composicional e maior densidade emocional, evocando com mais eficácia as imagens e estados de espírito presentes em seus títulos. Mais importante do que tudo, no entanto, é o fato de que esse enriquecimento não se nota apenas numa análise “técnica” do disco, pois se reflete diretamente na beleza e organicidade das peças. É a partir de uma prazerosa audição que se percebe uma sólida construção.

Camila Frésca, jornalista e pesquisadora musical