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Alexandre Guerra é um 'alfaiate' das trilhas sonoras

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo

Compositor paulista de 41 anos é o autor preferido de cineastas nacionais e estrangeiros 

A música de cinema no Brasil tem uma tradição de grandes autores ligados ao universo clássico, como Villa-Lobos (1887-1959) e Guerra-Peixe (1914-1993), e ao mundo do jazz, do qual Rogério Duprat (1932-2006) foi seu maior representante. Na esteira do Cinema Novo, novos autores surgiram, mas poucos se dedicaram exclusivamente à composição de trilhas sonoras.

Dos exemplos mais recentes, Antonio Pinto talvez seja o nome mais lembrado, por ter assinado a música dos filmes de Walter Salles (Central do Brasil, Abril Despedaçado). No entanto, esse é um segmento que cresce internacionalmente. Além de Pinto, requisitado por Hollywood (Colateral, O Senhor das Armas), outro nome desponta na preferência de diretores estrangeiros, o compositor paulista Alexandre Guerra, de 41 anos, encarregado de um grande projeto do realizador e romancista francês Frédéric Lepage, Salvos da Extinção, série de documentários sobre cientistas que dedicam suas vidas a salvar animais, para a qual o brasileiro está compondo peças de extração sinfônica.

Guerra tem sido muito procurado não só pelos estrangeiros. Está em cartaz um ótimo documentário brasileiro com música sua, Quem se Importa? Dirigido por Mara Mourão, o filme fala de líderes (inclusive um premiado com o Nobel da Paz, Muhammad Yunus) que desenvolveram projetos humanitários ao redor do mundo. O compositor também trabalha na trilha da versão cinematográfica de O Tempo e O Vento, produção de Rita Buzzar (Olga, Budapeste) que está sendo dirigida por Jayme Monjardim, com o qual Guerra trabalhou anteriormente em novelas para a televisão e na minissérie Maysa - Quando Fala o Coração (2009). Para Monjardim ele também compôs temas que foram incorporados à trilha da novela A Vida de Gente, alguns deles reunidos no CD Suíte das Estações Brasileiras, que Alexandre Guerra acaba de lançar (o disco é distribuído pelo selo Borandá).

A suíte é assumidamente pós-impressionista e tem um leve acento jobiniano. Composta para uma orquestra de câmara, ela se concretizou graças a uma sugestão de Monjardim. "Numa tarde outonal de maio, ele, que conhecia uma peça minha chamada Movimento de Primavera, sugeriu que eu concluísse o ciclo com as outras estações e, apaixonado pela ideia, compus os temas que integram a suíte". Formado em música de cinema pelo Berklee College of Music, onde estudaram os compositores americanos Howard Shore (dos filmes de Cronenberg) e Alan Silvestri (Capitão América), Guerra foi aluno de David Spear, assistente do compositor Elmer Bernstein e arranjador de trilhas populares do maestro, como as de Ghostbusters.

Foi como arranjador, aliás, que a carreira do compositor brasileiro começou no Brasil. Aos 24 anos, já estudando nos EUA, ele assinou os arranjos do CD Girassol, vencendo 180 candidatos do prêmio Sharp de Música. Quando voltou, em 1995, o cinema nacional vivia seu renascimento. Eram filmes como O Quatrilho (o segundo brasileiro indicado ao Oscar) e Carlota Joaquina (grande sucesso de público). Animado, Guerra, que escrevia jingles e vinhetas publicitárias, assinou em 1998 sua primeira trilha, Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia, documentário de Roberto Elisabetsky.

É um exercício virtuosístico que procura retratar musicalmente a época e o universo popular do criador de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas nada tão radical como a trilha composta para 100 Gols de Rogério Ceni, documentário sobre o goleiro e artilheiro dirigido por Willy Biondani. Participam da trilha os integrantes da banda Angra, de heavy metal, que já fez turnês internacionais com o Sepultura. A estridência da trilha contrasta violentamente com a suavidade de sua Suíte das Estações Brasileiras.

"Compositor de cinema é como um alfaiate, ele tem de fazer a roupa de acordo com o corpo, adaptar-se à exigências do filme", justifica Guerra, embora sua vocação seja mais a música atmosférica do francês Bruno Coulais e a harmonia delicada de Tom Jobim. Sintomático: Guerra também foi aluno do grande maestro alemão Hans Joachin Koellreuter, que deu aulas para o inventor da bossa nova. Guerra teve dois anos de aula com o regente. "Apresentei uma composição chamada Grito dos Pássaros e ele simplesmente me disse que tínhamos de recomeçar do zero". Humildemente, o compositor aceitou. Depois disso, já compôs trilhas para diretores como Cao Hamburger e André Sturm, além do primeiro filme de animação brasileiro em 3D, Brasil Animado, de Mariana Caltabiano.

Na trilha dessa animação, Alexandre toca sax e flauta. Também pianista, ele começou com o saxofone. "De tanto imitar o som do instrumento com a boca, acabei herdando o sax do meu bisavô". No entanto, apenas aos 14 anos ele começou a estudar o instrumento a sério. Foi mais ou menos por essa época que o adolescente, filho do publicitário Carlos Guerra, começou a frequentar a Cinemateca, descobrindo a música de cinema. "Ouvia muito Ennio Morricone, Nino Rota, mas me identificava mais com os americanos - Philip Glass, por exemplo. A mania de usar um leitmotiv para identificar personagens vem dessa identificação, diz, projetando uma sequência da série de documentários de Lepage dedicada ao condor. É um tema orquestral digno de Copland.

Os ambiciosos arranjos de Guerra vão exigir dos produtores de O Tempo e o Vento um investimento extra para que a trilha seja gravada por uma sinfônica de Budapeste. "Poderia registrar aqui, mas os custos para gravar com uma orquestra brasileira são altos e sempre acabamos por recorrer a um artifício, que é o de dobrar os instrumentos para dar massa sonora na edição final."

Ligado à escola tonal, Guerra se define como um "conservador", embora sua música demonstre o contrário, revelando um músico tão eclético como o francês Philippe Sarde, um de seus modelos, a quem prestou homenagem num concerto organizado por sua produtora, a Inputsom, para a Orquestra Experimental de Repertório de Jamil Maluf. "Ter ouvido a trilha que ele compôs para Sautet, As Coisas da Vida, certamente marcou minha carreira", diz Guerra, que, desde 1995, já compôs música para 50 filmes.
 
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