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Estações Brasileiras

28 de fevereiro de 2012 - Camila Frésca

A relação entre música e cinema existe desde os primórdios desta que é conhecida como “sétima arte”. Se os primeiros filmes não tinham fala, já contavam com uma trilha sonora que completava a imagem silenciosa. E como imaginar cenas clássicas como Gene Kelly dançando na chuva ou o macaco jogando sua ferramenta para o alto em 2001: Um odisseia no espaço sem as músicas que ajudaram a eternizá-las? A música para cinema criou seus gigantes, como Nino Rota, Bernard Hermann ou Ennio Morricone. Cada um desses artistas soube dialogar magistralmente com as imagens: sua música podia ora enfatizar ora se contrapor ao desenrolar da trama. Se estas músicas nasceram a partir de referências externas, elas se notabilizaram por suas qualidades intrínsecas e sobrevivem hoje para além das imagens as quais originalmente se relacionam.
No Brasil, os autores de trilhas sonoras variaram desde músicos de notada atuação na área erudita, como César Guerra-Peixe ou Cláudio Santoro, até aqueles que estão entre os maiores representantes de nossa música popular, como Milton Nascimento e Chico Buarque. E incluiu também músicos que transitam com maestria entre estes dois universos, como Radamés Gnattali, Tom Jobim ou Egberto Gismonti. É a esta última tradição que pertence o compositor Alexandre Guerra. Tendo se iniciado na música pelo saxofone, instrumento notadamente ligado à música popular, Alexandre adquiriu sólida formação como compositor por meio de estudos no Berklee College of Music e com Hans-Joachim Koellreutter – um dos nomes mais importantes da vida musical brasileira durante o século XX. Essa bagagem permitiu que o artista escrevesse para grandes formações orquestrais, seja como arranjador ou ainda criando obras próprias. Ao mesmo tempo, Alexandre nunca se distanciou do universo popular, atuando como instrumentista em projetos como o ótimo Duo de Dois, que mantém em parceria com Toni Cunha.
É assim, transitando com liberdade e sensibilidade entre os universos erudito e popular que Alexandre Guerra constrói sua música. Nestas Estações brasileiras, há um amálgama entre a música “pura” (ou seja, aquela que tem um fim em si mesma) e a funcional (a que serve a um outro meio ou arte, no caso o cinema e a televisão), entre o erudito e o popular. A linguagem musical tradicional é tratada com intimidade e utilizada (transformada) de forma pessoal. Convivem a escrita orquestral e um certo clima de bossa nova, tal qual as obras sinfônicas do mestre Tom Jobim – na qual, aliás, a música de Alexandre se inspira e da qual é devedora. Uma grande homogeneidade perpassa todo o disco: seja nas Estações, seja nas peças feitas em períodos e com objetivos distintos, permanece o andamento lento, a atmosfera nostálgica e introspectiva – embora momentos de luminosidade apareçam aqui e ali, como em Despertando.
Com mais de 60 trabalhos no currículo só na área de trilha sonora (para o cinema, a TV ou documentários), Alexandre Guerra já pode ser considerado um veterano em seu ramo, além de um dos mais competentes profissionais da área no Brasil. Unir diferentes universos musicais e fazer a música se relacionar a outros suportes e artes, embora não seja um caminho propriamente novo, é uma das mais fortes tendências contemporâneas e que ganha cada vez mais espaço pelo mundo. No caso da música erudita, mais do que uma opção, é uma forma de sobrevivência – ter o cinema como meio de difusão foi provavelmente um dos grandes trunfos dessa música no século XX.
Embora já conte com destacados representantes, esse é um nicho ainda tímido no Brasil, mas que tende a se ampliar. Com estas belas Estações brasileiras, Alexandre Guerra firma-se como um dos mais talentosos músicos de uma geração versátil, antenada com a contemporaneidade e que não se intimida com barreiras imaginárias.

Camila Frésca, jornalista e pesquisadora musical